terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Eu + tu = Nós

por Karina Alvarez

Dentro de um relacionamento afetivo as pessoas se misturam, os gostos se confundem, os hábitos se contaminam. O que era mania de um, passa a ser do outro também. Aquela banda que o marido gostava tanto acaba sendo a preferida da esposa também. E aquela série de TV que a esposa acompanha, agora o marido não perde por nada. Isso é mais do que natural, é esperado. Aprender um com o outro, compartilhar programas é parte primordial do status “em um relacionamento amoroso”, e mais do que isso é uma oportunidade de crescimento, de expansão de repertório social, de círculo de amizade, de conhecimento de mundo. Relacionar-se é exatamente isso, é acrescentar.
Acontece que em um relacionamento amoroso os laços são muito mais estreitos que em uma amizade, por exemplo, onde este tipo de coisa também acontece. As pessoas se envolvem muito mais com o outro e isso também não é nenhuma novidade. E aos poucos, o casal vai ficando conhecido como, “Débora-Cristiano” ou “ Cleyton da Solange” ou ainda “Fernando-marido-da-Tina” como se o outro fosse uma extensão de sim mesmo. Esse é um hábito implícito da sociedade, mas até que ponto encarar nosso marido/esposa como um outro membro de nosso corpo é saudável para nossa vivência? Experimente contar quantas vezes você usa o “nós” quando deveria usar o “eu”. Me dei conta disso quando perguntei a uma pessoa o que ela gostava de ler, e ela me respondeu: “Nós temos o hábito de ler romances estrangeiros.” E continuou: “Nós lemos juntos para discutir a leitura.” Por um lado achei maravilhosa a cumplicidade e companheirismo daquele casal, mas resolvi insistir. “Mas e VOCÊ, tirando romances estrangeiros, costuma ler algo diferente?” E obtive a resposta que desconfiava: “Ah, antes de casar eu lia contos de terror, mas minha esposa não gosta então eu parei, faz muito tempo que não leio meu autor favorito.” Foi aí que uma bandeirinha levantou na minha cabeça; parou porque? E é por isso que proponho essa reflexão, até que ponto abrimos mão dos nossos gostos, dos nossos costumes e da nossa individualidade em favor não só do cônjuge, mas do relacionamento que depois de um tempo adquire vida própria?  É muito saudável para a relação fazer, gostar, descobrir, iniciar coisas diferentes, sozinho-consigo-mesmo, pois abre margem para discussões e reflexões novas.
Deve-se sim valorizar o tempo que se passa sozinho, seja durante uma leitura, um filme água com açúcar que o marido vai detestar, fazendo umas comprinhas no shopping, jogando uma partida de cartas com os amigos ou ainda durante aquela sessão de massagem impagável que só se pode desfrutar a um, para em seguida voltar correndo, com muitas novidades para os braços do seu amor! Lembrando que para existir o “nós” primeiro precisou vir o “eu” e o “tu”.


3 comentários:

  1. http://agir-e-pensar.blogspot.com/2011/02/saramago-vida-intima-de-um-icone.html

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  2. Parabens pelo texto!! Vivo um momento na qual esse texto mostra muita coisa.

    Obrigado!

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  3. Valeu pelo comentário Brunão... um abraço

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