segunda-feira, 3 de setembro de 2012

'Viciados' em jogos preocupam pais e psicólogos

MARIANA VERSOLATO
DE SÃO PAULO


Jogos de RPG on-line estão criando uma legião de adolescentes dependentes e levando à especialização do atendimento psicológico e psiquiátrico no Brasil.
Fenômeno recente, esse tipo de vício fez também com que clínicas para dependências químicas (como álcool e tabagismo) se adaptassem para tratar a nova patologia.
A Associação Americana de Psiquiatria chegou a considerar a inclusão do vício em videogames na nova e quinta versão do DSM (Manual de Diagnósticos e Estatísticas), mas decidiu que ainda não há evidências suficientes.
Não é raro, porém, que psiquiatras e psicólogos se deparem com casos de adolescentes e adultos jovens com graves consequências em suas vidas por causa do uso excessivo dos jogos. Pesquisas também mostram semelhanças entre os jogos on-line e os de azar, como bingos.
Entre os jogos de videogame, aqueles que têm o maior potencial de criar dependência são conhecidos como MMORPG ("massively multiplayer online roleplaying game"). Traduzindo: diversos participantes se aventuram em desafios e simulações de guerras (para citar um dos cenários do RPG) de forma intensa, por muitas horas ou até dias seguidos.
O poder viciante desses jogos tem a ver com suas características: não há "game over"; o sucesso depende das horas investidas; e os desafios requerem um grupo de jogadores (para lutar contra o próprio jogo ou contra outras equipes), o que os torna responsáveis pelo time e os desestimula a deixá-lo.
Editoria de Arte/Folhapress

EM BANDO
Há também um sistema de recompensa pelos desafios enfrentados, e a interação entre os jogadores acaba funcionando como rede social.
"Muitos dos pacientes contam que o mais legal é a interação com os colegas no jogo. Dizem se sentir mais valorizados, queridos e eficazes no jogo do que em casa ou na vida", diz Cristiano Nabuco, pesquisador na área de dependência em internet do Instituto de Psiquiatria da USP.
A psiquiatra Analice Gigliotti, chefe do setor de dependências químicas da Santa Casa do Rio de Janeiro e médica do Espaço Cliff, conta que começou a tratar dependentes de tabaco há 20 anos, mas há pouco tempo teve de aprender a lidar com os jogadores compulsivos.
"A internet é a dependência da vez, com um uso cada vez mais distribuído. Nela, os jogos on-line são os mais perversos", afirma.
Além do Rio, há serviços especializados em dependências tecnológicas em São Paulo e Porto Alegre. Psiquiatras e psicólogos que tratam de transtornos do impulso também têm lidado mais e mais com jogadores on-line.
Em outros países, o problema é mais discutido e também mais grave: Coreia do Sul, China e Estados Unidos têm casos de mortes de jovens em decorrência de dias ininterruptos de jogos. Nos EUA, no início do mês, um garoto de 15 anos foi hospitalizado por exaustão e desidratação após jogar "Call of Duty" por quatro dias inteiros.
Serviços especializados em jogos on-line também são mais numerosos e existem desde 2006 na Europa. Na Coreia do Sul há até um acampamento de "desintoxicação" de jogos para meninos, onde eles fazem atividade física e reaprendem a brincar.

PASSATEMPO
A tendência, dizem especialistas, é que o problema comece cada vez mais cedo, até porque já há redes sociais com jogos para crianças, e o uso de eletrônicos é estimulado pelos próprios pais.
"Sempre se pensou que era um passatempo inofensivo. Mas começamos a ver uma situação curiosa nas famílias: o problema estava dentro do quarto dos adolescentes, enquanto os pais achavam que assim estavam seguros", afirma Daniel Spritzer, psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudos de Adições Tecnológicas, em Porto Alegre.
É o caso de Julio (nome fictício), 18, do Rio de Janeiro. Sua mãe, que também preferiu não se identificar, percebeu que o simples gosto por jogos eletrônicos havia se tornado um vício quando o filho parou de estudar e perdeu o interesse em sair de casa.
"O problema piorou aos 15 anos. Se eu pedia para ele sair do computador, começava a briga. Ele mentia dizendo que ia dormir, mas ficava jogando. O que mais doeu foi o afastamento da família. Não sabia mais o que fazer."
Ela conta que a coisa piorou de vez quando ele repetiu de ano e começou a colocar dinheiro na conta de outra pessoa para que seu personagem no jogo ficasse mais poderoso. A solução foi buscar tratamento em uma clínica privada, no início do ano.
"Ele não está 100%, mas já melhorou muito. Faz terapia e usa remédio para controlar a compulsão", diz a mãe.
Segundo Gigliotti, é importante que os pais busquem ajuda porque esse comportamento pode se arrastar e atrapalhar durante toda a vida.
Quanto à abordagem, Spritzer diz que os pais precisam se aproximar do filho sem recriminá-lo para abrir um canal de comunicação.
"Não adianta virar policial do filho. A ideia do tratamento é reaprender a usar o computador e colocar outras atividades no lugar." 


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Comporte-se: Psicoterapia Analítica Funcional (FAP): entendendo o cliente na relação terapêutica


Ele estava vindo à terapia já há algumas semanas, nunca faltava, ou se era preciso, avisava com antecedência. Porém, ao final da sessão, sempre me deixava com uma sensação vazia e um pensamento... “o que eu fiz por ele na sessão e, na verdade, o que ele precisa de mim?” Abordei esse tema diversas vezes durante as sessões, tentando entender o motivo que o fez procurar terapia. A resposta era evasiva e geralmente na direção de “sempre gostei de fazer terapia, me faz bem ter ajuda para pensar sobre mim”, e outras vezes envolvia “bom, minha mãe é a razão de eu fazer terapia”, mas minhas inúmeras tentativas de aprofundar o tema eram em vão. As questões trazidas sempre pareciam ser irrelevantes pra ele. Era difícil definir uma queixa e a sensação era de que ele tratava a terapia como um hobby e não algo que de fato importasse ou fosse necessário. Depois de algumas semanas nessa situação, o cliente começou a trazer relatos de assuntos “mais pesados”, envolvendo outras pessoas, nunca ele mesmo. E ao mesmo tempo, relatava essas histórias como sendo banais, apesar de envolver temas como doenças graves de familiares próximos, relações incestuosas entre conhecidos e agressões físicas. Tudo para ele parecia normal, corriqueiro e nada o surpreendia ou chocava. Ao ser questionado sobre isso, ele me contou que não era assim no passado. Antigamente era explosivo, “perdia o controle” e agia de forma bastante dramática em situações banais e hoje em dia, depois de muita terapia, havia aprendido a “ser mais calmo”. “Ser mais calmo” era importante para o cliente, pois quando “explodia” recebia fortes críticas de sua mãe. O caso foi ficando mais claro e percebi que a hipótese que vinha se formando em minha cabeça fazia sentido. Aparentemente, na tentativa de se controlar e não “explodir”, o cliente mantinha-se afastado de suas emoções, assim como de vínculos mais próximos que pudessem suscitar a falta de controle que ele tentava evitar. O cliente fazia isso em seu dia-a-dia e fazia isso comigo em sessão. 

Segundo a Psicoterapia Analítica Funcional (ou FAP, do nome em inglês Functional Analytic Psychotherapy), o cliente apresenta em sessão, na relação com seu terapeuta, problemas funcionalmente semelhantes aos que apresenta em seus relacionamentos diários. A FAP foi desenvolvida baseada nos princípios do behaviorismo radical e é considerada uma das terapias de Terceira Onda, juntamente com a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Terapia Comportamental Dialética (DBT), entre outras (Hayes, Masuda, Bissett, Luoma, & Guerrero, 2004). Sendo assim, utiliza conceitos como modelagem, reforço, punição, discriminação, generalização para entender a própria relação terapêutica e utiliza-a como instrumento de mudança terapêutica (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001; Tsai et al., 2009/2011; Tsai, et al., 2012).

Nesse sentido, a teoria da FAP compreende os comportamentos do cliente e também do terapeuta como sendo modelados pelas contingências de reforçamento de relações passadas, de modo que estímulos atuais evocam comportamentos funcionalmente semelhantes aos evocados previamente (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001; Tsai et al., 2009/2011; Tsai, Kohlenberg, Kanter, Holman, & Loudon, 2012, Kohlenberg & Tsai, 1994). Isso quer dizer que ainda que o comportamento do cliente em sessão seja diferente dos comportamentos externos à sessão em sua forma (topografia), possivelmente será igual ou semelhante em relação às consequências que o mantém (função). No caso hipotético citado acima, é curioso observar que apesar do cliente construir vínculos em seus relacionamentos (incluindo o relacionamento com sua terapeuta), ele mantém certa distância e frieza, que evita com que entre em contato com emoções muito intensas, além de evitar suas reações explosivas, não recebendo assim as punições que recebia no passado. 

Quando os comportamentos-problema do cliente, que costumam acontecer em seu dia-a-dia, são identificados como ocorrendo na sessão terapêutica, eles são nomeados, dentro da concepção da FAP, como Comportamentos Clinicamente Relevantes (ou CCRs) e são considerados como aqueles comportamentos aos quais o terapeuta tem que estar atento durante a sessão. Os CCRs podem ser essencialmente de três tipos a depender da função que apresentam. Os CCR1s são aqueles considerados como o comportamento problema do cliente ocorrendo dentro da sessão; os CCR2s são os comportamentos de melhora do cliente também apresentados em sessão; enquanto que os CCR3s são as análises feitas pelo cliente sobre seu próprio comportamento (preferencialmente tais análises devem ser funcionais, envolvendo a história de reforçamento e punição daquele comportamento) (Tsai et al., 2012). Quando tais comportamentos aparecem na sessão, é possível que o terapeuta trabalhe diretamente a relação existente entre terapeuta e cliente, levando primeiramente a uma melhora nessa relação. Como o objetivo final da terapia é promover uma melhora na vida diária do cliente, depois de trabalhada a própria relação terapêutica, é necessário que se promovam estratégias de generalização, a fim de levar essa melhora às demais relações vividas pelo cliente. 

É importante explicitar que o objetivo do terapeuta FAP é responder adequadamente a tais CCRs dentro da sessão, com o objetivo de diminuir as ocorrências de CCR1 e aumentar as ocorrências de CCR2 e CCR3. Isso é mais do que simplesmente discutir tais problemas, que ocorrem fora (ou mesmo dentro) da sessão com o cliente. Para isso o terapeuta deverá estar atento a tais comportamentos ocorrendo na relação no aqui-e-agora e deve trabalhar diretamente com eles, ao invés de lidar apenas com descrições do comportamento (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001; Tsai et al., 2009/2011; Tsai, et al., 2012; Hayes et al., 2004).

No caso representado acima, a distância e falta de expressão emocional apresentadas pelo cliente, podem ser considerados CCR1s, que têm a função de evitar as punições recebidas por suas fortes demonstrações passadas. Nesse sentido, ser capaz de se aproximar das pessoas, mostrando suas emoções de forma não tão intensa, seria um CCR2 possível. E ser capaz de analisar toda ou parte dessas interações, identificando as consequências de cada forma de ação, seria o CCR3 associado. Desse modo, um primeiro passo seria ajudar o cliente a entrar em contato e expressar tais emoções de forma apropriada durante a sessão de terapia, o que provavelmente geraria uma aproximação com o terapeuta e em seguida, auxiliar o cliente a fazer o mesmo em suas relações cotidianas. Ou seja, a mudança se daria primeiramente na relação com o próprio terapeuta e em seguida nas relações cotidianas do cliente, de modo que a relação terapêutica acaba por ser o próprio instrumento de mudança e melhora do comportamento do cliente.

Alguns exemplos podem ser citados, com o objetivo de exemplificar o trabalho feito no aqui-e-agora, tal como a FAP aponta:


  • um cliente que nunca foi ouvido por seus familiares e apresenta grande dificuldade em identificar seus sentimentos e ideias. O objetivo da FAP não é apenas descrever essa dificuldade para o cliente ou suas estratégias de mudança, mas evocar e reforçar a identificação de tais sentimentos que ocorrem em sessão;



  • um cliente que tem muita dificuldade em ser assertivo pode conseguir pedir a seu terapeuta uma mudança no horário da sessão ou mesmo uma redução no valor da sessão. Nesse caso, seria importante validar os pedidos assertivos feitos pelo cliente;



  • um cliente que apresenta dificuldades de concentração no trabalho, deve ter seu comportamento reforçado quando finalmente conseguir manter o foco em algum assunto importante durante a sessão;



  • um cliente que costuma agredir verbalmente pessoas que apresentam ideias diferentes das suas, deve ser incentivado a discordar de forma não agressiva de seu terapeuta.

Cada um desses exemplos foi descrito apenas para exemplificar de forma geral o objetivo da FAP, mas não devem ser tomados como fórmulas para a aplicação com outros clientes, pois a identificação adequada dos CCRs deve ser baseada em uma formulação do caso. Tal formulação deve ser feita de forma cuidadosa, funcional (não-topográfica) e totalmente individual para cada cliente em questão e deve conter: a) um resumo que identifique as variáveis relevantes da história do cliente; b) os comportamentos fora de sessão importantes do cliente; c) as variáveis que mantém os problemas diários do cliente; d) as habilidades do cliente; e) os CCRs propriamente ditos; f) as intervenções planejadas; g) as dificuldades e comportamentos alvo do próprio terapeuta na relação com aquele cliente específico. Além de se levar em consideração todos esses aspectos, é necessário estar atento à contínua evolução dos CCRs, que mudam naturalmente ao longo do tempo (Tsai et al., 2009/2011; Tsai et al., 2012).

Nessa coluna, estarão sendo abordados diversos aspectos da FAP a da forma como vêm sendo usada pelos profissionais da área. Nesse primeiro texto, o foco foi sobre como a FAP entende o comportamento do cliente em sessão e no próximo será apresentado como o terapeuta deve trabalhar com tais comportamentos do cliente durante as sessões terapêuticas a fim de promover mudanças. De forma geral, todo o trabalho da FAP feito pelo terapeuta, desde a formulação do caso, até a modelagem no repertório do cliente na relação terapêutica, envolve o desenvolvimento de uma relação real de intimidade acontecendo entre as duas pessoas presentes. O terapeuta deve estar sempre atento às consequências que suas próprias ações geram no cliente e compreender que essa relação é importante e real para seu cliente. Para isso, cuidados devem ser tomados pelo terapeuta no manejo dessa interação.


FONTE: http://www.comportese.com/2012/08/psicoterapia-analitica-funcional-fap.html?m=1

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Crianças bilíngues têm cérebro mais ágil e criativo, aponta estudo escocês


Menores que dominam línguas são melhores em cálculos matemáticos. Pesquisa avaliou 121 alunos do ensino fundamental na Escócia e Itália.




Crianças que sabem pelo menos duas línguas conseguem resolver cálculos matemáticos e ser mais criativas que as demais, revela um estudo da Universidade de Strathclyde, em Glasgow, na Escócia.
A pesquisa foi feita com 121 alunos escoceses e italianos do ensino fundamental que dominavam inglês ou italiano – 62 deles também conheciam o idioma gaélico (falado no Reino Unido) ou sardo (língua românica da ilha italiana de Sardenha).
Os voluntários bilíngues, em média com 9 anos de idade, completaram as tarefas com mais sucesso, e os que conheciam gaélico foram ainda melhores que os falantes de sardo.
As habilidades para alternar os idiomas também poderiam servir para a agilidade em outros tipos de raciocínio, segundo os autores.
As crianças que sabiam gaélico tinham uma formação melhor porque aprendiam a língua e a literatura da região no ensino formal do colégio. Já os falantes de sardo vinham de uma antiga tradição oral, sem padronizações.
De acordo com o professor Lauchlan Fraser, que liderou o estudo, o bilinguismo é visto como benéfico na infância, tanto para o vocabulário quanto para a compreensão das ideias. Além disso, a atenção seletiva – foco em uma informação importante – também é beneficiada.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Evento gratuito na USP - III SIMPÓSIO SOBRE CONTROLE AVERSIVO


III SIMPÓSIO SOBRE CONTROLE AVERSIVO  (III SICA)
13 e 14 de agosto de 2012
Instituto de Psicologia – USP
Bloco B- Sala 20

Organizadores: Maria Helena Hunziker (USP) e Marcus Bentes de Carvalho Neto (UFPA)


PROGRAMA
13/08
HORÁRIO
ATIVIDADE
09-10:40
ABERTURA
HISTÓRIA DA PRODUÇÃO EM CONTROLE AVERSIVO (CA)

História da produção em CA no Brasil com base em teses e dissertações
Bruna Colombo (PUC-SP)

Frequencia de publicações em CA no JEAB e JABA
Marcus Bentes de Carvalho Neto - (UFPA)
10:40-11:00

11:00-12:30
ESTUDOS ATUAIS SOBRE CA EM TRÊS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS

Marcus Bentes de Carvalho Neto (UFPA)
Carlos Eduardo Costa (UEL)
Maria Helena Hunziker (USP)
12:30-14:00

14:00-15:30
INFLUÊNCIA DE SKINNER NO ESTUDO DO CA
B.F. Skinner e o uso do controle aversivo: um estudo histórico-conceitual
Tatiana Evandro Martins (UFPA)

O controle aversivo na análise da liberdade por Skinner
Luana F. T. Hamilton (USP)
15:30-16:00

16:00-17:30
CA NAS CONTINGÊNCIAS SOCIAIS

Saúde pública: o que a pesquisa básica tem a ver com isso?
Maria Beatriz Barreto do Carmo (USP)

Um teste empírico da objeção skinneriana ao uso de controle aversivo em sistemas sociais
Christian Vichi (UNIVASF)
14/08
09:11:00
QUESTÕES CONCEITUAIS/METODOLÓGICAS NO CA

Vale a pena a manutenção da dicotomia aversivo X apetitivo?
Maria Helena Hunziker (USP)

Simetria e assimetria entre reforçamento e punição: Uma revisão dos argumentos teóricos e empíricos
Paulo César Morales Mayer (UFPA)
11:00-11:30-

11:30- 12:30
Análise de algumas posições de M. Sidman apresentadas no livro "Coerção e suas implicações
Maura Gongora (UEL)

12:30-14:00

14:00 -15:40
CA NAS POLÍTICAS PÚBLICAS

O uso da punição no sistema jurídico
Thor Lincoln Nunes Grünewald (advogado)

Barreiras, atalhos e gambiarras nas políticas públicas e na pesquisa comportamental do controle vetorial da dengue
João Bosco Jardim (Fiocruz – MG)
15:40-16:00

16:00-17:30
Perspectivas atuais no estudo do CA e propostas para o IV SICA/2014-
(debate entre todos os convidados)

ENCERRAMENTO

INSCRIÇÕES
Vagas limitadas
Preço: gratuito
Fornecimento de certificado: mínimo  75% de frequencia

Encaminhar formulário preenchido para  sica_usp@yahoo.com.br .

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Cérebro vacila e comete mais erros quando as regras mudam, diz estudo

Divulgando texto já publicado no http://www.comportese.com:


"Mente" se sobrecarrega para esquecer padrões antigos e focar nos novos.
Para autor, alterações constantes no trabalho podem levar à exaustão.



Aprender uma nova tarefa quando as regras do jogo mudam faz o cérebro vacilar e cometer uma série de erros, segundo um novo estudo feito por pesquisadores da área de psicologia da Universidade do Estado de Michigan, nos EUA. Os resultados do trabalho estão publicados na atual edição da revista científica "Cognitive, Affective & Behavioral Neuroscience".

O principal autor, Hans Schroder, cita o exemplo de uma pessoa que viaja para um país como a Irlanda e, de repente, tem que dirigir em mão inglesa. O cérebro, treinado para conduzir um carro sempre no sentido direito, acaba sobrecarregado ao tentar esquecer os padrões antigos e se concentrar nos novos. Com tantos conflitos ocorrendo ao mesmo tempo, o indivíduo pode esquecer-se de ligar o pisca-alerta várias vezes seguidas, sem se dar conta disso.

Os participantes da pesquisa passaram pelo seguinte teste de computador: quando aparecia a sequência de letras "NNMNN", tinham que apertar o botão esquerdo para indicar que a letra "M" estava no meio. Já quando vinha a sequência "MMNMM", deveriam pressionar o botão direito para mostrar que a letra "N" ficava no centro. Depois de 50 repetições, as regras foram investidas. Resultado: os voluntários cometeram mais erros sequenciais e não se deram conta disso. Além disso, a atividade cerebral ficou mais intensa do que na primeira fase, porém com respostas mais lentas e menos precisas.

Na opinião do professor assistente de psicologia Jason Moser, mudanças constantes de regras no ambiente de trabalho podem levar a repetidos erros e, consequentemente, à exaustão, frustração, ansiedade ou depressão. "Essas descobertas, junto com uma pesquisa anterior nossa, sugerem que, quando você precisa fazer 'malabarismos' com a mente – sobretudo se ela é multitarefa –, torna-se mais propenso a falhar. São necessários esforço e prática para ter mais consciência dos erros que você está deixando escapar e conseguir manter o foco", destacou Moser.



segunda-feira, 30 de julho de 2012

Mulheres superam homens em testes de QI pela primeira vez na história


Pela primeira vez, mulheres superaram os homens em testes de QI feitos em vários países do mundo.
A pesquisa foi coordenada pelo cientista americano James Flynn, que mora na Nova Zelândia e é pesquisador da Universidade de Otago.
Ele estuda há décadas a variação de QI da população mundial e foi quem formulou a tese de que há um aumento progressivo da inteligência a cada geração --o que ficou conhecido como "efeito Flynn".
Há pelo menos um século são feitos testes de QI pelo mundo e, historicamente, as mulheres sempre ficaram, em média, cinco pontos atrás dos homens.
Flynn já tinha observado que essa diferença estava diminuindo pouco a pouco e, no último levantamento, feito em países da Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Argentina e Estônia, as mulheres alcançaram pontuações mais altas.
"Nos últimos 100 anos, o QI de homens e mulheres têm aumentado, mas o das mulheres têm aumentado mais rápido. É uma consequência da modernidade", disse o pesquisador em entrevista ao jornal "Daily Mail".
Uma das hipóteses levantada por Flynn é a de que hoje as mulheres são mais exigidas por acumularem papéis da vida profissional e pessoal.
As descobertas serão publicadas em um livro, mas, segundo o pesquisador, ainda são necessários mais testes e pesquisas para explicar totalmente o fenômeno.


terça-feira, 24 de julho de 2012

Campanha reacende debate sobre deficit de atenção

 Uma campanha lançada pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia) contra o uso excessivo de medicamentos por crianças e adolescentes para melhorar o desempenho escolar, reacendeu o debate sobre o diagnóstico de deficit de atenção.
O lançamento da campanha "Não à Medicalização da Vida" do conselho de psicologia foi feito durante audiência pública na Câmara dos Deputados. O Ministério da Saúde disse ser a favor da ação por defender o uso racional de todos os remédios.
Dados da campanha mostram que, em 2000, foram consumidas 70 mil caixas de medicamentos para o tratamento de distúrbios ligados à aprendizagem.
"Comportamento se aprende, mas com a droga a criança não cria a expectativa de resolver os problemas com novas estratégias. O remédio resolve e ocupa esse lugar", afirma Marilene Proença, conselheira do CFP.


Continue lendo em: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1120095-campanha-reacende-debate-sobre-deficit-de-atencao.shtml

segunda-feira, 23 de julho de 2012

II Congresso de Clínica Psiquiátrica 2012


O conteúdo do evento abordará questões polêmicas no avanço da psiquiatria, cobrindo desde ciências básicas e pesquisa clínica até políticas de saúde pública e saúde mental.

Acesse:
http://www.clinicapsiquiatrica.org.br/2012/index.php




terça-feira, 17 de julho de 2012

Brasileiros identificam proteína que protege neurônios contra Alzheimer


Substância chamada STI1 tem papel importante na formação da memória.
Mecanismo pode levar a um novo tipo de tratamento no futuro.





Tadeu Meniconi
Do G1, em São Paulo.
Pesquisadores brasileiros descobriram a ação de uma proteína que serve como proteção aos neurônios contra o avanço do mal de Alzheimer. Os cientistas acreditam que essa substância possa ser usada em algum tratamento futuro contra a doença, que é cada vez mais comum entre idosos e atinge principalmente a memória.

"Identificamos uma ação benéfica que pode vir a se tornar um tratamento", afirma Pedro Hirata, um dos autores do estudo, publicado na revista científica "Journal of Neurochemistry".
Hirata é ligado ao Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, e faz intercâmbio na Universidade Western, no Canadá, onde trabalha sob orientação do também brasileiro Marco Prado.
Na pesquisa, o grupo descreveu as interações químicas de uma proteína chamada STI1. Ela é uma das responsáveis por ligar o neurônio a outras substâncias que ficam na superfície dele – por isso, a STI1 recebe o nome de "ligante".
Em cima dos neurônios, também fica uma proteína chamada príon, que funciona como um receptor de substâncias do ambiente externo. Os ligantes fazem a comunicação entre o príon e o neurônio. Essa interação é responsável por vários processos que ocorrem nas células, desde o próprio desenvolvimento delas até a formação de um neurônio funcional.
Há vários tipos de ligantes, e cada um provoca um efeito diferente. Em um trabalho recente, a mesma equipe havia mostrado que, se essa interação for feita por uma toxina capaz de atingir o sistema nervoso, os neurônios perdem a comunicação entre si e acabam morrendo. Agora, nessa pesquisa mais recente, os cientistas descobriram que a proteína STI1 protege os neurônios e tem um papel importante na formação da memória.
A ideia de um tratamento futuro, que ainda precisa ser desenvolvido em laboratório, seria usar a STI1 para blindar os neurônios. Além da proteção natural, essa proteína ainda ocuparia os espaços de ligação, dificultando a interação da toxina com as células.
"Esperamos conseguir esses dois efeitos com a proteína STI1", aponta Hirata.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Clínica analítico-comportamental

 "A terapia analítico-comportamental é um movimento bastante peculiar desenvolvido por brasileiros, que optaram por relatar suas experiências, reflexões e recomendações com base em achados já consolidados e outros inovadores da análise do comportamento. A incorporação gradativa de novos conceitos a práticas já consagradas levou a um desenvolvimento maduro que merece divulgação." (Roberto Alves Banaco - Prefácio)



Nós da Clínica Agir e Pensar, estudamos e recomendamos este livro. Em especial, aos estudantes de psicologia, psicólogos e pessoas interessadas no assunto.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Transtorno obsessivo-compulsivo em jovens é alvo de estudos no HC

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP está fazendo pesquisas sobre métodos de tratamento do TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) para crianças e jovens e sobre a hereditariedade do transtorno. Um dos estudos vai comparar a eficácia de iniciar o tratamento com remédios e/ou com terapia cognitiva-comportamental. Os participantes receberão acompanhamento por um ano. A pesquisa seleciona voluntários entre crianças e jovens de seis a 17 anos que tenham pensamentos, impulsos ou comportamentos repetitivos. Um segundo estudo está avaliando a possibilidade de pais com transtornos de ansiedade terem mais risco de gerar filhos que vão desenvolver esse tipo de problema. Podem participar da pesquisa pais que receberam diagnóstico de TOC, pânico, ansiedade e fobia social, com filhos de três a 17 anos. Inscrições para os estudos podem ser feitas pelo telefone 0/xx/11/2661-7594.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Pesquisa da FMUSP revela que comprador compulsivo necessita de tratamento específico

Publicado em Comportamento por Redação em 24 de fevereiro de 2012 |


Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

A compra compulsiva é um distúrbio psicológico que possui caraterísticas diferentes das observadas em portadores de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e do Transtorno Bipolar. É o que revela uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Devido aos sintomas distintos apontados pelos compradores complusivos, o estudo da psicóloga Tatiana Zambrano Filomensky defende o desenvolvimento de novos tratamentos voltados especificamente aos portadores do distúrbio, ao invés da aplicação dos métodos utilizados nos pacientes de TOC e Transtorno Bipolar.

A partir de questionários aplicados em pacientes, a pesquisa verificou que a principal característica do comprar compulsivo é uma falha em resistir ao impulso de comprar, que pode gerar prejuízos pessoais, financeiros e familiares. “O paciente apresenta uma deficiência no planejamento de suas ações e impulso de aquisição excessiva”, descreve Tatiana. “Desta forma, o comprador compulsivo não pensa nas consequências dos seus atos a longo prazo, levando em conta apenas a satisfação do momento de comprar”.

Entre os portadores de TOC, as características mais apontadas na pesquisa foram a repetição constante dos gestos de lavagem (preocupação com contaminação) e checagem. “No caso do Transtorno Bipolar, foram estudados os portadores do Tipo 1, o mais clássico, em que os períodos de mania e depressão são mais definidos, evitando a possibilidade de erro diagnóstico”, afirma Tatiana. “O gasto excessivo é um dos sintomas do estágio de mania, que é o período de maior agitação e euforia nos bipolares”.

Diferenças

Segundo a psicóloga, a instabilidade afetiva dos portadores de transtorno bipolar pode levá-los a comprar compulsivamente no estado de mania. “Entretanto, nos compradores compulsivos, não é a perda de regulação do humor que os leva a comprar”, ressalta.

“A única aproximação verificada entre portadores de TOC e compradores compulsivos é a aquisição compulsiva, sintoma que está relacionado com o transtorno de armazenamento compulsivo ou hoarding”, conta Tatiana. “Apesar dessa interface, as características mais comuns apontadas nos dois transtornos são muito diferentes”.

Participaram da pesquisa 85 pessoas. Os compradores compulsivos vieram do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Pró-AMITI) do Instituto de Psiquiátria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP. O tratamento é realizado em conjunto com o dos portadores de outros distúrbios. Os pacientes com TOC e Transtorno Bipolar participam do Programa Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (PROTOC) e do Programa de Transtorno Bipolar (PROMAN), também realizados pelo IPq. A pesquisa foi orientada pelo professor Hermano Tavares, da FMUSP.

De acordo com a psicóloga, as principais características dos compradores compulsivos são a falta de planejamento e o impulso de aquisição excessiva, o que revela sintomas próprios independentes dos verificadas em outros transtornos. “Isso deve ser considerado pela Medicina para desenvolver tratamentos específicos para a compra compulsiva”, ressalta Tatiana, “e não aplicar os métodos já utilizados nos pacientes de TOC e Transtorno Bipolar”.

Mais informações: e-mail tatizf@usp.br, com Tatiana Zambrano Filomensky

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Motivação - Essa é para os que desistem rápido diante dos desafios



Essa é para os que desistem rápido diante dos desafios. Lembre-se: o problema pode estar em como se assopra e não na vela.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Gentileza

Gentileza como uma proposta de ética nas relações com os outros, com a vida e com o planeta. Não apenas simples atos cordiais. Parece que cada época tem o dom de criar os seu profetas loucos, que por falta de freios conseguem traduzir as verdadeiras angústias e necessidades da civilização.

(Eduardo Cardoso)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

TABACARIA - Fernando Pessoa



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos, 15-1-1928

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Satisfação sexual feminina aumenta com a idade, diz pesquisa


JULIANA VINESDE SÃO PAULO


A maioria das mulheres com mais de 60 anos está satisfeita com sua vida sexual, segundo estudo americano publicado nesta semana. E mesmo aquelas que declararam não praticar sexo também se dizem satisfeitas.
O trabalho analisou 806 questionários de mulheres com em média 67 anos. Foram feitas perguntas sobre atividade sexual, reposição hormonal, dor, lubrificação, desejo sexual e orgasmo durante a relação.
"Embora existam pesquisas sobre satisfação sexual, poucos estudos falam sobre idosas", escrevem os autores do artigo, pesquisadores da Universidade da Califórnia e da San Diego School of Medicine. O estudo foi publicado na revista "The American Journal of Medicine".
Do total de voluntárias, metade (49,8%) disse ter feito sexo no último mês. A maioria (64,5%) declarou ficar excitada, 64,5% disseram ter lubrificação normal e 67,1% afirmaram que têm orgasmo.
"No geral, dois terços das que eram sexualmente ativas estavam satisfeitas, assim como metade das sexualmente inativas." Para a surpresa dos pesquisadores, as mulheres mais velhas do estudo (com mais de 80 anos) relataram maior satisfação.
Por outro lado, 40% de todas as voluntárias disseram que nunca ou quase nunca sentem desejo sexual. Segundo Elizabeth Barrett-Connor, médica e pesquisadora da Universidade da Califórnia, esse resultado sugere que o desejo não é essencial para que a relação sexual aconteça. "Elas podem se envolver em uma atividade sexual por múltiplas razões, como a manutenção de um relacionamento", disse a pesquisadora para o site de divulgação científica EurekAlert!.
Outra conclusão do trabalho é que a relação sexual nem sempre é necessária para a satisfação. Aquelas que são sexualmente inativas podem conseguir se satisfazer só com a intimidade do relacionamento ou com a masturbação.
Para o psicoterapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Júnior, diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, várias pesquisas já demonstraram que, muitas vezes, o mais importante para as mulheres é a troca de afeto e a proximidade com o parceiro. "Nem sempre para se satisfazer é preciso ter orgasmo."
Ele aponta, porém, dois problemas de metodologia na pesquisa americana: a dificuldade de saber o que é satisfação e o fato de as perguntas se referirem apenas às últimas quatro semanas. "O questionário acaba sendo limitado. A satisfação envolve muitos aspectos subjetivos."
De acordo com o psicólogo, o lado bom do estudo é que dá para perceber que essas mulheres estão mais dispostas a comentar sobre o tema. "Elas estão se sentindo mais livres para falar de assuntos delicados como orgasmo e lubrificação. Isso é sinal de uma mudança cultural. Há 30 anos, mulheres dessa idade dificilmente falariam sobre isso."
Segundo ele, não tem como saber se o que elas estão falando é o que realmente acontece. "Elas demonstraram um esforço para mostrar que estão satisfeitas. Isso pode ser verdade como pode ser uma forma de autoafirmação, para expressar o contrário de uma ideia que elas mesmo tinham sobre mulheres mais velhas."

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1030844-satisfacao-sexual-feminina-aumenta-com-a-idade-diz-pesquisa.shtml

domingo, 8 de janeiro de 2012

Hora do CHECK-UP de início de ano


Essas baterias de exames, mais procuradas no início do ano, agora têm modalidades só para idosos, viajantes ou até descendentes de japoneses

MARIANA VERSOLATO
DE SÃO PAULO

Chegou a hora de começar a cumprir as resoluções de Ano-Novo, que costumam incluir metas como cuidar mais da saúde. É por isso que a busca por check-ups costuma crescer nesse período - no HCor (Hospital do Coração), esse aumento é de 30% em janeiro e fevereiro.
Marcio Kawashima, 35, engenheiro, é um dos que se submeteram a uma bateria de exames neste mês. Ele ficou uma manhã inteira fazendo testes e indo a consultas. "É um pouco cansativo, mas já resolve tudo."
Além do check-up tradicional, feito principalmente para avaliar risco de doenças cardiovasculares e detectar doenças precocemente, esse tipo de inspeção está cada vez mais específica.
No Fleury Medicina e Saúde, há cinco tipos de check-up. Além do clássico, há o "fitness", para quem vai começar uma atividade física ou quer monitorar a performance, e o do viajante, com orientações sobre vacinas.
Eles oferecem também o exame da maturidade, para maiores de 60 anos, que inclui consultas com geriatras e exames de cognição, e até um voltado para a comunidade japonesa no país. Os orientais são submetidos a testes específicos de acordo com os riscos a que estão mais expostos, como pressão alta (por causa da alimentação rica em sódio) e problemas na tireoide (devido ao consumo elevado de peixes).
O laboratório CDB já tem check-ups para a saúde mental, para crianças e adolescentes e, em fevereiro, vai oferecer o serviço também para grávidas no início da gestação e mulheres que pretendem engravidar.
A diferença para o pré-natal é uma bateria de exames (como sorologia e testes genéticos) e consultas que incluem uma avaliação psicológica.
Segundo César Jardim, coordenador do check-up do HCor, a idade recomendada para começar a fazer os exames anuais é entre 30 e 40 anos.
Mas quem tem histórico familiar de doenças cardíacas deve começar mais cedo. "O quanto antes", recomenda Nelson Carvalhaes, responsável pelo serviço de check-up do Fleury
Os testes periódicos não são necessariamente os mesmos todos os anos e não precisam virar o paciente do avesso.
"É preciso ter cuidado para não achar e criar problemas ou detectar coisas que não precisam de tratamento. Os testes devem ser aplicados segundo as diretrizes das sociedades médicas", afirma Carvalhaes.
Para Jardim, o que vale é a interpretação do médico para o risco do que foi encontrado. "Dependendo do que for -um cálculo no rim, por exemplo-, avaliamos a necessidade de só fazer um acompanhamento."

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/18897-hora-do-check-up.shtml